Ferida

O tempo passa
Ficamos mais velhos
Mudamos, amamos, sofremos
Voamos para longe
Mas sempre nos cruzamos
Como um chamado que não pode ser ignorado
Me pergunto se é obra do destino
Ou da nossa teimosia
Em querer reviver nossa arte
Tão instintiva e intensa
Ela é nosso combustível de vida
Quando estamos vivendo como mortos
Precisamos dela para renascermos
Ela nos permite voar para longe
Mas sempre retornar
Como um pássaro que volta ao seu ninho
Ao seu lugar
Nossos reencontros sempre deixam
cicatrizes profundas
Mas sempre vou desejar a próxima ferida

Matile Facó

Incerteza

Ele enxugava as lágrimas
Como se fossem um rio
Proibido de correr
Há tempos não se via assim
Seu coração estava adormecido
Ele o pusera a dormir
Buscando o silêncio do sentir
Não esperava que despertasse
Com batidas tão firmes
Como se quisesse avisa-lo
Que era a hora de renascer
E libertar sua alma
Mergulhando na incerteza dos sentimentos
E se entregar à liberdade do presente
Com todas suas possibilidades
Ele, então, sorriu delicadamente
E se permitiu sentir o que não podia controlar
Lançando-se à beleza do desconhecido
Que a vida tem a oferecer

Matile Facó

Aos que me leem

Os que me leem
Sabem de muitas coisas
Escolheram andar pela estrada
Menos movimentada
Vêem-se em minhas palavras
Deixando-se tocar pela poesia
Sinto-os como eles me sentem
Compomos juntos a arte
Da imensidão de cada verso

Poucos passam por essa vida
Como os que me leem
Que fazem da sua trajetória
Uma aventura intensa
Sem abdicar dos instintos
Gostam de atravessar o fogo
Transbordando suas almas
Confiando na própria sorte
Vivem ferozmente
Dançando com a lua
Gritando silenciosamente
Voando sem suas asas
Vibrando com as cores da natureza

Os que me leem não são esquecidos
Carregam consigo as cicatrizes
Que contam tantas histórias
E não temem mais a escuridão
Pois já emanam sua própria luz
Reconhecem sua essência
Deixando marcas pelo caminho
Mostrando ao mundo
Que escolher trilhar
Aquela estrada
Vale a pena

Matile Facó

Mergulho

Essa chuva que insiste em cair
Tão pura e tão livre
É uma benção em meio ao caos
Desperta o melhor em mim
Me faz querer viver mais um dia
Para que eu possa vê-la
Pelo menos mais uma vez
E sentir a sua energia
Como um abraço da natureza
Que me envolve
E me lembra da imensidão do mundo
Mergulho, pois, nessa água
Banhando minha alma com vida
E renasço, assim, para mais um dia

Matile Facó

Instrumento da Alma

Há uma trilha sonora na vida
Única e especial
Para cada ser
Ela nos convida à dançar
Com o coração como guia
Impulsionando os movimentos dos nossos corpos
Os órgãos seguem o ritmo da música
E a alma se liberta, como um passarinho
Durante a dança, muitos sentimentos se criam
A pele arrepia
Os pés criam vida própria
Os braços parecem asas
As pernas sustentam o peso da alma
Essa que toma o corpo como instrumento
E se expressa sem medo do julgamento
Então, deixemos a música tocar
E façamos dessa dança uma conversa silenciosa
Que nos conecta e nos faça aproveitar cada passo na jornada da vida

Matile Facó

Sentido

Estou em uma altura da existência
Na qual não faço mais tantas perguntas
Pouca coisa ainda me intriga
E dentre essas coisas me refiro ao amor
O amor verdadeiro e genuíno
Uma mãe com um filho
Um cão com seu dono
Uma neta com sua avó
Aquele que parece dar sentido a tudo
Existir sem ele é a mais cruel das maldições
Me intriga a sua disponibilidade
No meio dessa bagunça
E sua fiel insistência em nunca acabar

Matile Facó

Agora

Se minha mente vaga
Entre o que foi e o que será
Me rendo à ilusão da imaginação
A exatidão não se achará no momento seguinte
Nem a precisão existe naquele que se antecedeu
Esqueço do instante atual
O único real

O homem se perde entre
Passado e futuro
Enquanto bichos e plantas
Desfrutam do presente
Antes do homem, tempo não havia
A mente o inventou e o cultivou
Aqueles que o ignoram, logo
Livres estarão.

Matile Facó

D(instinto)

Nunca encontrei meu molde
Nessa sociedade, na qual todos se encaixam
Eu sempre me desviei
Nunca gostei do igual
Meu paladar sempre foi diferente
Único e peculiar
Sempre senti demais, falei demais
Amei demais, procurei por mais
Parece que sei de tudo, menos os meus próprios limites
A intensidade sempre me dominou
Tentando fazer tudo ao mesmo tempo e já ansiando por mais
Buscando as respostas para as perguntas que nem conheço
Fugindo da manada do óbvio e do clichê
Desafiando todas as expectativas
Deixando minhas marcas pelo caminho com ou sem intenção
Eu abraço minha individualidade
Me permito ser quem sou e me tornar o que serei
Mostro ao mundo o meu eu
Com minhas lacunas e meus excessos
Abro minhas asas juntas a minha própria incerteza

Matile Facó

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