Ganância

Tento escapar mas não consigo

Sinto que meu destino está selado

Me vejo em um labirinto 

O mundo se transforma

Minha essência permanece

Não há saída

Só me resta o calor do fogo

Eu imploro pela queimadura

Ela compensa o vazio

Esse vazio é ganância?

Uma maldição cruel

Só consigo ir longe demais

Canso de mim

Vivo e morro

Infinitamente

Matile Facó

Laço

Me chamaram de estranha e eu amei.

a definição é “que ou o que se caracteriza pelo caráter extraordinário; excêntrico.”

Não poderia me descrever melhor. Estranho é bom.

você me persegue por isso?

sei que você gosta disso.

Te faço rir de uma forma única e te faço sentir coisas que ninguém mais faria.

Gosto da tua presença porque tuas mãos tocam minha alma antes de tocarem meu corpo.

Conexão é assim. Uma energia incapaz de se descrever.

Não estamos juntos e isso já está superado. Mas não significa que nosso laço desatou. Te sinto todo e sei que você me sente também.

Matile Facó

Sonho

Ela olha pela janela

De forma diferente

Ela não observa o mundo

Curiosamente

Ela o sente dentro de si

O sentimento a preenche

Tantas cores, tantas formas

Tantos movimentos e sons

Ela jura que já experimentou

Não lembra o instante

Mas teimosa insiste

Com cuidado

Fecha a janela e deita na cama

Fecha os olhos

E volta a sonhar

Matile Facó

Fome

Quando tudo parece tão sem graça gosto de escrever. Falo comigo mesma e busco respostas para minhas perguntas. Afinal, a minha curiosidade é infinita.
O óbvio não me agrada. O clichê me causa repulsa. A rotina me angustia.
Tenho várias versões dentro de mim que estão enjauladas.
Preciso alimentá-las. Estão famintas. Preciso daquela faísca do desconhecido, do estranho, do calor, do vigor, da intensidade e da paixão. Sou completa, mas eu preciso que transborde.
Vejo tantos outros longe da fogueira. Recolhidos, parados, talvez dormindo, seguros. Só que os observo de longe. Durmo muito perto das chamas e vez ou outra me queimo. A dor vicia. E as cicatrizes contam histórias. Me consumo por inteira, mas sempre preciso de mais. Cansei de fingir que estou satisfeita. Sempre vou ter fome de mim.

Matile Facó

Meu escuro

Eu sinto que é tudo minha culpa. Sempre foi e sempre será. Como uma sombra que sempre vai me perseguir, não importa pra onde eu vá. É o preço que eu estou destinada a pagar por querer me deitar muito perto do fogo e testar os limites do meu corpo, da minha mente e da minha alma.

Alma. Sempre questionei a minha.

Eu sei que todas as pessoas têm o lado claro e o lado escuro da alma. Qual deles prevalece em mim? A verdade é que eu tenho medo. Medo do meu pior. Medo de mim? Tenho medo do meu lado claro não ser grande ou forte o bastante pra me salvar.

Sempre que alguém me falava que meu destino estava nas minhas próprias mãos, eu sentia vontade de rir. Eu me sentia fudida. Sabia que meu destino deveria ser algo completamente imprevisível porque eu não sentia o controle sobre mim mesma. E se meu lado escuro fosse mais forte? Como uma batalha celestial épica, a qual ele sempre estivesse destinado a vencer no fim dos tempos.

Acho que você nunca consegue se acostumar a não confiar em você mesmo. Afinal, você mesmo é tudo que você possui realmente, não é? Ou, pelo menos deveria ser assim. É o que as pessoas que, supostamente, têm seu lado claro mais forte adoram dizer. Essa confiança me causa inveja. Que bom seria saber exatamente qual é o meu limite. Eu nunca o encontrei. Sempre que penso estar finalmente o conhecendo, ele vai embora antes que eu possa enxergá-lo. E eu fico completamente obcecada em busca dele novamente.

Você pode se perguntar: Por que essa obsessão pelo próprio limite? Somente um idiota perseguiria os próprios limites dessa forma.

E a minha resposta é simples: Eu sou assim. Eu sinto dentro da minha porra de alma que esse é o meu destino. Experimentar de tudo, até o meu próprio colapso. Essa intensidade me consome. Eu quero tudo e, de preferência, eu quero agora. Mesmo sabendo o quão impossível de alcançar isso é. Eu sempre vou estar disposta a tentar mais uma vez pra me satisfazer. Pra encontrar as respostas pra as infinitas perguntas que surgem na minha mente todo o tempo.

Não quero dizer que só me atraio pelo que é ruim por causa do lado escuro da minha alma. Não mesmo. Na verdade, sinto que ele só quer engolir tudo que vê pela frente. Ele não é nem um pouco seletivo. Junto a todas as coisas que ele costuma engolir, sempre têm o bom e o ruim. Ele alimenta meu lado claro também, mesmo sem querer. Eu quero tanto odiá-lo, mas eu não consigo, porque, no fundo, eu teria que assumir que eu me odeio também. Ele, provavelmente, é quase que inteiramente eu mesma. É a minha verdadeira essência. Por isso, nunca estaremos separados. Ele é o meu verdadeiro eu. Tenho que aceitar isso, eventualmente.

Então, quando tenho que encarar o espelho, sinto uma leve vontade de rir ao olhar pra mim mesma e ainda ousar questionar: Qual é o lado da minha alma que prevalece? Sinto que ele também ri de mim. De nós. Essa é a relação que sempre teremos. Ele me consome. Eu o consumo também. Ele guarda todos os meus segredos. O pior e até o melhor de mim. Ele é todo o meu ser, e aprendendo a amá-lo, eventualmente, vou me amar também. Mesmo me queimando com o fogo, as cicatrizes vão valer a pena no final. É isso que faria sentido pra mim. Valer a pena.

Matile Facó

O fim do que restou

Aqui estou. Comigo. De volta. Como sempre.

Não sinto o que deveria sentir. Só sinto o que não devo. Pra onde vou depois daqui?

Não quero tentar de novo. Mereço isso. Não mereço aquilo.

Quero desistir e nunca mais precisar sentir. Não sirvo pra isso.

A cada hora, sinto os minutos acabarem com o que sobrou de mim.

Não quero mais tempo. Não preciso mais disso. Quanto menos, melhor.

Já não me interessa. Não pros meus restos. Não mais.

Você também se sente assim? Me pergunto inutilmente. Sei que nunca saberei.

Só me resta esperar o fim. O fim do tudo. O fim do nada. O fim do que restou.

Matile Facó

raízes

te entendi mal por tanto tempo

julguei que me prendia e me limitava

logo eu, que nasci com asas

tentei te cortar e, enfim, me libertar

vendo que estava presa a ti, quis fugir

mas com os anos, vem os danos

viver sem ti? ficar sem mim?

como? se, no fim, sou tu

me mantém assim, viva, sou eu

me dá o que nem sei que preciso

sempre firme a me segurar

das tantas quedas que já levei

a cada voo, ao tentar me distanciar

mas tu sempre a me amparar

me lembrar de quem sou

e, graças a ti, sei pra onde vou

Matile Facó

eles

aquele fardo que me encara no espelho dia e noite. que me ameaça sem trégua. contra o que luto com as cicatrizes expostas, mas reluto por imaturidade. sem eles. sem reforço.

finalmente me dispo e aquilo cessa. a agonia termina. a dor acaba. no espelho, agora, só vejo a mim. desnuda pra eles. por eles. por mim. lida. descanso ao pronunciar a última daquelas palavras. alívio. conforto. euforia. tudo junto.

mesmo com um fim errado, parece certo. sempre deve ter sido. sinto o frescor. libertação. sou consumida por inteira. com eles, sou curada.

Matile Facó

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