Ontem sonhei com uma garça Uma garça branca, bonita e graciosa Olhava pra mim como se me pedisse Mais compaixão comigo mesma Ela parecia saber todos os meus pecados Mas me concebia todos os perdões Ela voava e me encantava Percebi que a amava Por ela me envolvia e me fascinava Nada mais importava além de vê-la Sentia a mais pura paz ao contemplá-la Rogo para que o sonho se torne realidade E que eu possa ver a garça em todo o seu esplendor Por onde quer que eu for Contemplando a vida com muito amor
Há dias em que me canso Canso das pessoas Canso da vida Canso de mim Já vi quase tudo E raramente sou impressionada Quando estou tão fatigada Preferiria não sentir nada Por pelo menos alguns instantes Não ser ninguém Me juntar ao vazio Descansar da existência Sair do mundo discretamente Pela porta dos fundos E, assim, em meio a esse refúgio Encontrar o meu verdadeiro eu
Dividindo a segunda garrafa Do meu tinto favorito Ao fundo a arte de Miles Davis Entre olhares e risos Já nos rendemos a curiosidade De explorar nosso lado mais íntimo Nossas cadeiras estão mais próximas Deixamos o resto do mundo de lado E criamos um universo só nosso Agora já estamos conversando Sem usar qualquer palavra Nossos beijos são como brindes Em honra aos nossos corpos Ao fim do encontro, nos despedimos sem querer Fui embora sem saber Se nos encontraríamos novamente Ou se tudo seria só uma bela lembrança Porque a vida é assim, eternos encontros e desencontros De pessoas, de histórias, de emoções E cada fim é apenas um começo De uma nova chance de realizar nossos desejos.
Reparo seres em bolhas Presos e confortáveis A zona de conforto ilude Sempre esconde a veracidade Só revela o que convém Quem se recusa a ver Não aprende nem evolui Tolos e cegos pelas ruas Alguns orgulhosos nessa condição Vivem sempre na escuridão Imagino como seria o mundo Com todos humildes e conscientes Mentes abertas rumo à verdade Compreensivos empáticos Aprendendo o sentido Da verdadeira liberdade
Olho pela janela Ouço o silêncio das ruas Aprecio a escuridão do céu Rabisco ideias no caderno Sem intenção de exibi-las Com a lua como cúmplice Consigo escrever livremente As palavras deslizam no papel Sem pressa, sem urgência Estou rendida à criação A inspiração me guia a voar Junto às nuvens no alto Dessa forma faço minha arte E dela também sou feita
Por onde passo deixo um rastro Improvisado, sem ensaio Minha arte deixa uma marca Que viverá sempre na tua alma Irei partir, mas não pra ti Sei que estarei pra sempre aí
Minhas ideias causam incêndios? Nunca houve sutileza nas palavras escritas em meus cadernos inflamáveis Prestes a tornarem-se cinzas no esquecimento Vou ousar, assim, usá-las até o último minuto Pra ti, escreverei, então, em meio às chamas Meu corpo será consumido pelo fogo Um ser já vazio por não te ter Uma mente cheia por tanto te querer Não importa o ardor que vou sentir Toda a dor e o calor Nunca serão maiores do que os que se sucederam à nossa despedida Nosso romance foi maior do que o incêndio que me cerca Nossa própria chama era ainda mais poderosa Inesquecível e absoluta Para se prolongar o prazer em te escrever Torço para que as chamas me queimem devagar, sem pressa Para garantir que não sobre nada a ser escrito. Depois de ti, que medo teria de ser consumida por outro fogo? No meio do calor do fim, decidi que nossa história me fará companhia Levarei comigo todas as marcas e vestígios deixados em mim E, como último resquício em ti, te dedico esta carta que rogo ser à prova de fogo Arderei no incêndio, portanto, feliz, sabendo que minha presença não se apagará em ti Porque minha arte sempre se tornará parte de tudo que já amei Como uma chama destinada a prover calor sem fim.
Tudo que vejo são corações infinitamente frustrados. É tolo quem não vê a brutalidade da paixão. A verdadeira. A Crua. A Real. Esqueça os piegas filmes hollywoodianos. Sua romantização é a maior de todas as armadilhas. Você se apaixona pela pessoa ou pelo sentimento? Está disposto a encarar a farta intimidade? As inúmeras diferenças e cobranças que aparecerão? Os ingênuos solitários buscam-na incansavelmente. Porém, quando a encontram, nunca estão preparados para encarar sua imperfeição. A paixão não é para os fracos. Só os fortes resistem à sua verdadeira face. Destrutiva. Insana. Nociva. Transforma a ordem em caos, quebra taças e garrafas de vinho, mistura suor e lágrimas, provoca gritos e alimenta vícios repulsivos. Apesar de todo o mal, há insanos que insistem em se entregar a tal maldição. Deixando tudo de lado para sentir aquelas instáveis faíscas de prazer. O arrepio. As batidas aceleradas do coração. O riso frouxo. O tesão. A adrenalina momentânea. Buscando atender a necessidade de ser dois. Completar-se. Jurando que da próxima vez será diferente. Embora nunca será. Entre dores e amores, desvendei esses segredos. Insana e amaldiçoada, permaneço uma eterna apaixonada.
Estava amanhecendo. Conseguia ver a luz do sol entrando pela fresta da janela. Minhas roupas em cima da cadeira. As suas largadas pelo chão. As cinzas de cigarro percorriam o chão e as manchas de vinho pelo lençóis. Resquícios de uma noite fulminante de paixão e fascínio. Duas criaturas noturnas, nuas, puras, vulneráveis, dispostas a vivenciar o puro ecstasy. O que realizamos foi a mais honesta arte. E eu só desejava que aquele amanhecer durasse pra sempre.
Esse cigarro me lembra você. Já passaram-se anos desde aquele dia do adeus. É negligência minha nunca ter escrito sobre você, mas, agora, é como se as palavras se pusessem no papel sozinhas, sem minha pretensão. Lembro bem dos nossos dias, das juras de amor eterno, dos inúmeros planos para um futuro distante. Ainda guardo todas as cartas e bilhetes que me escrevia e sempre me emocionaram tanto. Lembro com carinho de todas as músicas que me dedicava e das nossas conversas mais profundas. Você sempre soube todos os meus segredos. Aquilo era paixão incendiária, sem limites, pura, irracional, mas também um pouco ingênua, porque sabíamos que teria um fim. Aquele tão temido fim do qual sempre evitávamos falar. Estava vestida, mas minha alma estava nua e vulnerável. Você destinado a ir pra tão longe de mim. Me transtornava saber o prazo de validade da mais sincera e pura paixão que vivi. Hoje, sem você aqui, me aventuro em outros corpos e até mesmo em outros corações. Sei que nada é seu. Sinto a realidade me apunhalando. A vida segue, assim, distanciando geograficamente nossos corpos, mas pra sempre unindo nossos corações.