Garça

Ontem sonhei com uma garça
Uma garça branca, bonita e graciosa
Olhava pra mim como se me pedisse
Mais compaixão comigo mesma
Ela parecia saber todos os meus pecados
Mas me concebia todos os perdões
Ela voava e me encantava
Percebi que a amava
Por ela me envolvia e me fascinava
Nada mais importava além de vê-la
Sentia a mais pura paz ao contemplá-la
Rogo para que o sonho se torne realidade
E que eu possa ver a garça em todo o seu esplendor
Por onde quer que eu for
Contemplando a vida com muito amor

Matile Facó

Refúgio

Há dias em que me canso
Canso das pessoas
Canso da vida
Canso de mim
Já vi quase tudo
E raramente sou impressionada
Quando estou tão fatigada
Preferiria não sentir nada
Por pelo menos alguns instantes
Não ser ninguém
Me juntar ao vazio
Descansar da existência
Sair do mundo discretamente
Pela porta dos fundos
E, assim, em meio a esse refúgio
Encontrar o meu verdadeiro eu

Matile Facó

Encontros

Dividindo a segunda garrafa
Do meu tinto favorito
Ao fundo a arte de Miles Davis
Entre olhares e risos
Já nos rendemos a curiosidade
De explorar nosso lado mais íntimo
Nossas cadeiras estão mais próximas
Deixamos o resto do mundo de lado
E criamos um universo só nosso
Agora já estamos conversando
Sem usar qualquer palavra
Nossos beijos são como brindes
Em honra aos nossos corpos
Ao fim do encontro,
nos despedimos sem querer
Fui embora sem saber
Se nos encontraríamos novamente
Ou se tudo seria só uma bela lembrança
Porque a vida é assim, eternos encontros e desencontros
De pessoas, de histórias, de emoções
E cada fim é apenas um começo
De uma nova chance de realizar nossos desejos.

Matile Facó

Bolhas

Reparo seres em bolhas
Presos e confortáveis
A zona de conforto ilude
Sempre esconde a veracidade
Só revela o que convém
Quem se recusa a ver
Não aprende nem evolui
Tolos e cegos pelas ruas
Alguns orgulhosos nessa condição
Vivem sempre na escuridão
Imagino como seria o mundo
Com todos humildes e conscientes
Mentes abertas rumo à verdade
Compreensivos empáticos
Aprendendo o sentido
Da verdadeira liberdade

Matile Facó

Cúmplice

Olho pela janela
Ouço o silêncio das ruas
Aprecio a escuridão do céu
Rabisco ideias no caderno
Sem intenção de exibi-las
Com a lua como cúmplice
Consigo escrever livremente
As palavras deslizam no papel
Sem pressa, sem urgência
Estou rendida à criação
A inspiração me guia a voar
Junto às nuvens no alto
Dessa forma faço minha arte
E dela também sou feita

Matile Facó

Outro fogo

Minhas ideias causam incêndios?
Nunca houve sutileza nas palavras escritas em meus cadernos inflamáveis
Prestes a tornarem-se cinzas no esquecimento
Vou ousar, assim, usá-las até o último minuto
Pra ti, escreverei, então, em meio às chamas
Meu corpo será consumido pelo fogo
Um ser já vazio por não te ter
Uma mente cheia por tanto te querer
Não importa o ardor que vou sentir
Toda a dor e o calor
Nunca serão maiores do que os que se sucederam à nossa despedida
Nosso romance foi maior do que o incêndio que me cerca
Nossa própria chama era ainda mais poderosa
Inesquecível e absoluta
Para se prolongar o prazer em te escrever
Torço para que as chamas me queimem devagar, sem pressa
Para garantir que não sobre nada a ser escrito.
Depois de ti, que medo teria de ser consumida por outro fogo?
No meio do calor do fim, decidi que nossa história me fará companhia
Levarei comigo todas as marcas e vestígios deixados em mim
E, como último resquício em ti, te dedico esta carta que rogo ser à prova de fogo
Arderei no incêndio, portanto, feliz, sabendo que minha presença não se apagará em ti
Porque minha arte sempre se tornará parte de tudo que já amei
Como uma chama destinada a prover calor sem fim.

Matile Facó

Insanidade

Tudo que vejo são corações infinitamente frustrados.
É tolo quem não vê a brutalidade da paixão. A verdadeira. A Crua. A Real. Esqueça os piegas filmes hollywoodianos.
Sua romantização é a maior de todas as armadilhas.
Você se apaixona pela pessoa ou pelo sentimento?
Está disposto a encarar a farta intimidade? As inúmeras diferenças e cobranças que aparecerão?
Os ingênuos solitários buscam-na incansavelmente. Porém, quando a encontram, nunca estão preparados para encarar sua imperfeição.
A paixão não é para os fracos. Só os fortes resistem à sua verdadeira face.
Destrutiva. Insana. Nociva.
Transforma a ordem em caos, quebra taças e garrafas de vinho, mistura suor e lágrimas, provoca gritos e alimenta vícios repulsivos.
Apesar de todo o mal, há insanos que insistem em se entregar a tal maldição.
Deixando tudo de lado para sentir aquelas instáveis faíscas de prazer. O arrepio. As batidas aceleradas do coração. O riso frouxo. O tesão. A adrenalina momentânea.
Buscando atender a necessidade de ser dois. Completar-se.
Jurando que da próxima vez será diferente. Embora nunca será.
Entre dores e amores, desvendei esses segredos.
Insana e amaldiçoada, permaneço uma eterna apaixonada.

Matile Facó

Amanhecer

Amanhecer

Estava amanhecendo.
Conseguia ver a luz do sol entrando pela fresta da janela.
Minhas roupas em cima da cadeira.
As suas largadas pelo chão.
As cinzas de cigarro percorriam o chão e as manchas de vinho pelo lençóis.
Resquícios de uma noite fulminante de paixão e fascínio.
Duas criaturas noturnas, nuas, puras, vulneráveis, dispostas a vivenciar o puro ecstasy.
O que realizamos foi a mais honesta arte.
E eu só desejava que aquele amanhecer durasse pra sempre.

Matile Facó

Você

Esse cigarro me lembra você.
Já passaram-se anos desde aquele dia do adeus.
É negligência minha nunca ter escrito sobre você, mas, agora, é como se as palavras se pusessem no papel sozinhas, sem minha pretensão.
Lembro bem dos nossos dias, das juras de amor eterno, dos inúmeros planos para um futuro distante.
Ainda guardo todas as cartas e bilhetes que me escrevia e sempre me emocionaram tanto.
Lembro com carinho de todas as músicas que me dedicava e das nossas conversas mais profundas. Você sempre soube todos os meus segredos.
Aquilo era paixão incendiária, sem limites, pura, irracional, mas também um pouco ingênua, porque sabíamos que teria um fim.
Aquele tão temido fim do qual sempre evitávamos falar. Estava vestida, mas minha alma estava nua e vulnerável.
Você destinado a ir pra tão longe de mim. Me transtornava saber o prazo de validade da mais sincera e pura paixão que vivi.
Hoje, sem você aqui, me aventuro em outros corpos e até mesmo em outros corações. Sei que nada é seu. Sinto a realidade me apunhalando.
A vida segue, assim, distanciando geograficamente nossos corpos, mas pra sempre unindo nossos corações.

Matile Facó

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